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Lembranças musicais (formação) parte 01

A primeira lembrança musical que eu tenho, sou eu deitado no chão de cimento queimado avermelhado  na casa de amigo de rua, na cidade de Salinas das Margaridas - BA, adorávamos ouvir Raul Seixas na vitrola, eu deveria ter entre quatro e cinco anos. 

Meu pai tinha sido músico profissional quando jovem, então é claro que também me lembro dele tocando em casa. Também me lembro que nessa época eu gostava de gravar fitas com minhas músicas preferidas e no intervalo entre elas, eu fazia as chamadas e comentava, como se estivesse numa estação de rádio. 

Mas o gosto pela composição aconteceu aos meus 10 anos, período que morei na Ilha de Itaparica com meu pai, quando decidi aprender violão e teclado. Aos 11 compus minha primeira música mais relevante, com letra do meu irmão mais velho, Patrick. Essa música mais tarde levaria minha banda ao 5° lugar do festival de música regional, do Baixo Sul da Bahia. Ganhamos o prêmio revelação.  Era um pop rock com uma letra meio melancólica. 


"morrer durante a vida

Já não me intimida

a dor de uma ferida 

que não cicatriza..."


Depois comecei a fazer minhas próprias letras e nunca mais parei de compor canções. Acabava por contar minhas histórias amorosas, decepções e pensamentos sobre a vida. Influenciado pelo gosto musical do meu pai que amava Beatles. 

Depois da morte prematura do meu pai, na época do vestibular fui morar com o Tio Renato e sua família, que foi muito importante na minha formação e decisão em fazer música profissionalmente. Foi quando tive contato pela primeira vez com a música clássica. Na casa deles, eu li o primeiro livro de história da música acompanhado da coleção incrível de discos que tinha a minha disposição lá. Foi paixão a primeira vista. 

Quando voltei ao Rio, minha cidade natal, para cursar o curso de Licenciatura em Música, e depois o curso de Composição e Regência. Foi um sonho mágico no inicio, mas mesmo tempo em que um mundo novo se abriu, os traumas também começaram a aparecer. Música começou a se tornar um lugar inalcançável. Nada que eu fazia musicalmente parecia suficientemente bom para ser exposto.  E o fazer musical foi se tornando cada vez mais triste e duro, sentia uma cobrança do ambiente que me tomou de um perfeccionismo e um olhar limitado sobre o que é ou não fazer arte, tornando quase impossível alcançar tal música. Além de servi a apenas um público especializado.

Então, tudo começou a perder o sentido pra mim, com a canção eu sentia que não tinha mais nada a acrescentar e que eu era apenas mais um, na infinita produção de materiais no mundo, lixo digital. Além disso, minha canção não era popular, era uma espécie de androgenia que ninguém entendia. Uma mistura de estilos musicais. E na música instrumental acadêmica eu não conseguia me encaixar nessa gaveta racional e sem alma. Não era mais a música que tinha me cativado na infância, que me fazia sonhar e tinha me levado a viver dessa profissão. Minha alegria vinha das minhas aulas, ali a música ainda fazia sentido, procurava fazer dos meus alunos pessoas mais felizes através do fazer musical, e então resgatava algum sentido ao meu redor da música existir.

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