O místico sempre fez parte da minha vida, durante a minha infância influenciado pela minha mãe, eu fui uma criança, adolescente e um jovem católico e fervoroso. Com vontade de seguir o caminho eclesiástico. Mas aos 23 com minhas leituras sobre a história da igreja, da sociedade antiga e medieval, mas principalmente pelo meu gosto pela filosofia moderna ocidental, particularmente Nietzsche, eu rompi totalmente com a Igreja. O que acabou afetando também minha espiritualidade por não saber na época discernir a instituição da fé. Entretanto, guardava na minha memória o clima do som e do ambiente de uma catedral, que sempre me intrigava, correlacionava a reverberação das cúpulas com o rock progressivo, mas particularmente com alguns discos do Pink Floyd.
Quando comecei a estudar música na universidade, me apaixonei pela música vocal medieval e renascentista, logo entrei para um coral, para experienciar de perto essa música, o que foi um marcante aprendizado para na minha carreira - Fui cantor de importante coral do Rio de Janeiro ( Coro de Camera Pro-arte), que cantava basicamente música religiosa.
Depois de várias decepções com a academia e sua música contemporânea, vivi anos em uma busca incessante sobre que música me tocava e qual era o meu estilo. Tentei me livrar das lições que me diziam que caminho seguir, tentava encontrar minha essência prima, através de mais intuição e menos razão. Vivi uma dicotomia entra a música popular e a música erudita, que me devastava, porque tomava muito tempo pensando, começando e desistindo, recomeçando. De novo tentando me encaixar numa gaveta. Então comecei a entender que não era na música e sim na vida que iria encontrar a minha maneira de compor. Fui então em busca novamente da espiritualidade e de um sentido para vida, com isso acabei me afastando da filosofia ocidental e descobrindo a filosofia oriental, primeiro através da Ioga, depois com seus gurus. E fazia muito sentido com o meu passado, pois os Beatles e sua música que sempre foram elementos de inspiração, também se conectaram com essa cultura.
E então percebi que a música desde sempre esteve ligada ao meu espirito, compor era uma espécie de alquimia, magia, algo que não era pra ser explicado e sim sentido. Ainda assim, era muito vago encontrar um caminho como compositor com essas informações, havia muitas possibilidade para seguir. Por consequência comecei a rever meu trabalho e encontrei nele algumas pistas que me levaram a perceber que eu faço música inspirada na música religiosa medieval, foi quando comecei a pesquisar novos compositores contemporâneos que não haviam sido mencionados na academia, como Arvo Part, Thomas de Hartman, Gurdjieveff, gente do oriente e fui tentando identificar elementos e o que me atraia na música deles; espiritualidade, mistério, notas longas, contraponto entre duas notas, ostinatos melódicos, pedais harmônicos e diatonismo. (O diatonismo foi pra mim durante um certo tempo, uma espécie de pecado, quase proibido na produção acadêmica musical que estudei).
Enfim uma luz para meu caminho como compositor, não importava se é canção ou música instrumental, minha música buscará uma sonoridade que aproxime o encontro com mistério, com espirito, com silencio interno, com o vazio, com espaço sideral, com sonho e fantasia. A partir de hoje me declaro um alquimista, um místico de cria a partir da experiência própria. Faço deste escrito um descarrego, que põe fim as minhas angustias de não pertencimento aos engavetamentos institucionais.